Ataques a centros de tratamento dificultam resposta ao surto no RDCongo

Ataques a centros de tratamento dificultam resposta ao surto no RDCongo

Os ataques incendiários contra centros de tratamento do Ébola no leste da República Democrática do Congo (RDCongo) estão entre as dificuldades que as autoridades enfrentam para conter o surto da doença infecciosa, noticia a Associated Press (AP) citando uma ONG.

Lusa /
Centro de tratamento de Ébola, Congo Reuters

O incêndio de dois centros de tratamento por habitantes das zonas de Rwampara e Mongbwalu, que registam o maior número de casos de Ébola, doença declarada emergência de saúde pública mundial, demonstra como a reação negativa em algumas comunidades está a complicar a resposta das autoridades, numa região que enfrenta vários desafios.

"Ceticismo e raiva" é o que estes ataques podem refletir, segundo Colin Thomas-Jensen, diretor da ONG Aurora Humanitarian Initiative.

Thomas-Jensen referiu que esses sentimentos das pessoas no leste da RDCongo estão relacionados com a forma como a região tem sido tratada: anos de violência por parte de grupos rebeldes ligados a forças estrangeiras e a incapacidade do seu Governo e das forças internacionais de manutenção da paz em protegê-las.

Outra fonte de raiva tem sido os protocolos rigorosos em torno do enterro de vítimas suspeitas de Ébola, dos quais as autoridades estão a assumir o controlo sempre que possível para impedir uma maior propagação da doença quando as famílias preparam os corpos e as pessoas se reúnem para um funeral.

O primeiro incêndio de um centro de tratamento do Ébola em Rwampara foi perpetrado por um grupo de jovens locais que tentavam recuperar o corpo de um amigo falecido, segundo testemunhas e a polícia. As testemunhas afirmaram que a multidão acusou o grupo de ajuda humanitária estrangeiro que operava no local de mentir sobre o Ébola.

As autoridades do nordeste da RDCongo proibiram agora as vigílias fúnebres e as reuniões com mais de 50 pessoas, numa tentativa de conter a propagação da doença, e soldados armados e agentes da polícia estão a vigiar alguns enterros realizados por trabalhadores humanitários.

As crises de longa data no leste da RDCongo, que tornaram a região palco de um dos piores desastres humanitários do mundo, afetam a resposta a um tipo raro de Ébola por vários motivos.

Por um lado, a região enfrenta uma ameaça constante de violência. O leste da RDCongo tem sido palco de violência por parte de dezenas de grupos rebeldes distintos há anos, alguns deles com ligações a países estrangeiros ou ao Estado Islâmico(EI).

Por outro lado, os rebeldes do grupo armado Movimento 23 de Março (M23), alegadamente apoiados pelo Ruanda, controlam partes da região e embora o Governo da RDCongo ainda controle em grande parte a província de Ituri, no nordeste, que é o epicentro do surto de Ébola, esse controlo é frágil.

A RDCongo é regularmente afetada por epidemias do vírus Ébola, que se transmite através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infetadas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas.

A epidemia, declarada em 15 de maio, corresponde a uma nova estirpe do Ébola, para a qual não existe vacina e cuja taxa de mortalidade varia entre 30% e 50%, segundo a OMS.

O Ébola provoca uma febre hemorrágica mortal, mas o vírus, que causou mais de 15 mil mortes em África nos últimos 50 anos, é menos contagioso do que a covid-19 ou o sarampo.

Na ausência de vacina e de tratamento aprovado contra a estirpe Bundibugyo do vírus, responsável pela epidemia atual, as diretrizes de contenção assentam essencialmente no cumprimento das medidas de barreira e na deteção rápida dos casos.

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